Critica – Frances Ha(2012)

Poster for the movie ""

O otimismo contagiante de Frances Ha

“Eu gosto destas coisas que parecem erros” – Frances

Distante do arquétipo feminino das protagonistas dos filmes hollywoodianos Frances Ha (2012), de Noah Baumbach, nos apresenta a uma protagonista trintona desengonçada, desorganizada, que come vorazmente e que com seu jeito desconexo de ser enfrenta com um bom humor inabalável os percalços comuns a vida adulta.

Frances (Greta Gerwig) cai, levanta, fica sem grana e sem ter onde morar depois da melhor amiga Sophie (Mickey Summer) informá-la que irá mudar-se com outra colega para Tribeca.

Apesar de Baumbach revisitar o lugar comum ao trazer uma protagonista interiorana e os desafios enfrentados por esta ao viver na cidade grande. Ele surpreende ao construir uma personagem interpretada com franqueza e espontaneidade por Greta Gerwig. A qual consegue criar uma personagem autêntica e cômica sem ser forçada.

Representação da típica crise dos trinta. Frances é a confusão em pessoa, coleciona insucessos típicos da vida adulta. Mas ainda conserva em seu jeito de ser uma inconsequência juvenil.

Essa dualidade a torna quase vista como uma criança adulta. Que ainda brinca de lutinha na rua com Sophie ao mesmo tempo em que como qualquer pessoa na maturidade almeja estabilidade e um cantinho para chamar de seu.

Frances e Sophie
Frances e Sophie

 

O processo de amadurecimento é doloroso e gradual. Com momentos solitários e incertos. Na busca de si ela não filosofa ou mostra qualquer eruditismo pedante.Mas retrata autenticamente os prazeres e dificuldades em chegar aos trinta e ainda não saber o que fazer com a própria vida. Talvez porque tal como ela a maioria de nós não foi preparada por nossos pais para o fracasso.

Andamos em círculos e notamos que nossos sonhos juvenis não se realizaram. Temos de experimentar de modo doloroso as rasteiras da vida. A autonomia que tanto desejávamos vem acompanhada de responsabilidades. Necessidade de escolhas, para as quais ainda não estamos preparados. Fazendo-nos vagar em torno de nós mesmos.

O que tanto desejamos parece distanciar-se cada vez mais como a vontade de Frances em deixar de ser uma substituta de dança para tornar-se professora.

Vagando repleta de incertezas Frances encara com leveza e bom humor seus problemas resistindo a seus pequenos fiascos e acreditando que tudo pode melhorar, apesar de tudo.

Frances Ha não é só uma protagonista singular, mas é o retrato do que alguns de nós ainda continua a ser: adultos aprendizes ainda errantes frente à imprevisibilidade da vida.

Frances (Greta Gerwig) e Lev (Adam Driver), um quase romance.
Frances (Greta Gerwig) e Lev (Adam Driver),
um quase romance.

 

O que a torna diferente é sua capacidade de não entregar-se, agindo com uma resistência sem igual diante de obstáculos.

A inacessível

No que concerne ao amor Frances transita em uma relação marcada pelo antagonismo entre a busca e o distanciamento. Ela não o recusa, nem o centraliza dentre as suas prioridades como é comum em heroínas femininas do universo cinematográfico, mas deseja-o de modo peculiar como expressa em uma das cenas ao dizer:

“[…] Eu quero esse momento. É o que eu quero num relacionamento o que pode explicar porque estou solteira agora, ha,ha.É meio difícil, é essa coisa quando você está com alguém e você ama ele e ele sabe, e ele te ama e você sabe, mas é uma festa e vocês dois estão conversando com outras pessoas e vocês estão rindo e brilhando e olham pro outro lado da sala e se pegam se olhando, mas não porque você é possessiva ou que seja precisamente sexual, mas porque aquela é a sua pessoa nessa vida. E é engraçado e triste, mas só porque essa vida vai acabar e é esse mundo secreto que existe ali em público, despercebido, que ninguém mais sabe.É meio como eles dizem que existem outras dimensões ao nosso redor, mas não temos a habilidade de percebê-las. É isso que eu quero num relacionamento, ou na vida , acho. Amor”

Esta fala da personagem funciona como se ela quisesse explicar ao público a razão de sua solteirice e sua visão acerca do amor.

Frances parece perdida nesse labirinto que é a vida, mas para além de seus pensamentos aparentemente confusos, carrega a sensibilidade feminina e o desejo em ser amada, almejando acima disto a realização profissional e pessoal.

O triunfo de Frances

Após sua saga incansável Frances finalmente realiza-se profissionalmente. Passando a trabalhar como secretária da escola de dança. Podendo dedicar-se nas horas vagas a coreografar seu próprio grupo de bailarinos. Frances não é mais uma substituta, mas uma professora.

Além disso, a protagonista após uma série de endereços provisórios vivendo de favor nos apartamentos de amigos consegue seu próprio ‘lar doce lar’ e de hóspede passa a proprietária.

Frances (Greta Gerwig),Benji (Michael Zegen) e Lev (Adam Driver) um quase triângulo amoroso.
Frances (Greta Gerwig),Benji (Michael Zegen) e Lev (Adam Driver) um quase triângulo amoroso.

 

Ouso dizer que esta cena final é uma das mais belas do cinema devido a relevância de significado que carrega em sua singeleza: já em seu apartamento Frances parece ainda não crer que conseguiu um espaço dela, andando sobre a sala e  contemplando-a ela sabe que mais do que uma residência ela agora conquistou sua autonomia e seu lugar no mundo.

Sequência final de Frances Ha
Sequência final de Frances Ha
Sequência final de Frances Ha
Sequência final de Frances Ha

 

Referências

FRANCES Ha. Direção: Noah Baumbach, 2012: EUA, 1h35, son,P&B.

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